**Guilherme Almeida – Economista-chefe da Fecomércio MG

A palavra incerteza define o presente de uma América Latina em ebulição. A volta do peronismo na Argentina, marcada pela eleição de Alberto Fernández; a renúncia de Evo Morales após suspeitas de fraude eleitoral; e a presença do Exército nos protestos no Chile acentuaram a instabilidade política local. A situação não só agravou o fraco resultado da atividade produtiva nesses países, como evidenciou os motivos do baixo crescimento econômico na região.

O conturbado cenário latino-americano não é fato isolado. A desaceleração das principais potências econômicas mundiais – intensificada pela guerra comercial entre China e Estados Unidos – reacende a possibilidade de uma recessão global nos próximos anos. Diante disso, quais são as perspectivas econômicas do Brasil, país que vivenciou recentemente uma das longas recessões de sua história?

Os números comprovam: o Brasil tem um expressivo hiato a preencher quando se trata de Produto Interno Bruto (PIB). Até o primeiro semestre deste ano, o país conseguiu recuperar apenas 30% dos R$ 486 bilhões perdidos durante a última recessão econômica, que se perdurou de 2014 a 2016. Os dados são do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Em relação ao câmbio, a resistência da moeda brasileira em patamares próximos dos R$ 4,00 por dólar diminui expressivamente os ganhos do chamado carry trade, um dos principais fatores de apreciação da moeda local. Essa aplicação financeira consiste em tomar dinheiro a uma taxa de juros em um país e aplicá-lo em outra moeda, onde as taxas de juros são maiores.

Quanto à taxa Selic, o juro básico da economia, observa-se uma trajetória favorável ao consumo e ao investimento produtivo. Em outubro, ela atingiu o menor patamar da série histórica (5%), iniciada em 1989. Com isso, proporcionará um grande impulso à economia real, pois as aplicações financeiras em renda fixa perdem atratividade se comparadas ao investimento na atividade produtiva.

Com a expectativa de consolidação da política fiscal e reformista, pode-se concluir que os juros tendem a estacionar em baixos patamares por um longo período. Sendo assim, ainda que haja uma distância significativa entre a meta Selic e os juros para o tomador final, observa-se uma gradativa expansão das concessões de crédito, notadamente às famílias.

Logo, mesmo com um ambiente político-institucional relativamente instável, o Brasil segue com chances de se destacar em meio aos problemas globais. A agenda do governo é consistente, sobretudo por incluir reformas estruturais necessárias ao futuro do país. Além disso, há um grande e pouco explorado mercado interno, que poderá ter acesso ao crédito por meio de medidas como o Cadastro Positivo.

Com a aprovação da Reforma da Previdência e o encaminhamento de outras pautas importantes, como a simplificação tributária, espera-se que os níveis de confiança de consumidores e empresários comecem a melhorar. Portanto, ainda que o mundo cresça menos e os nossos vizinhos sigam conturbados, o Brasil tem potencial para se destacar caso siga na direção das reformas.

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