Planejar uma viagem de férias; passar o fim de semana em pousada no interior mineiro; render-se aos encantos da culinária regional; desbravar diversas trilhas ecológicas; ser presenteado, ao fim do passeio, com uma incrível cachoeira. Esses programas estão no imaginário de milhares de turistas, que tiveram contato com as exuberâncias, aconchego e sabores de Minas Gerais.

Todo esse cenário foi modificado há pouco mais de dois meses, com o início das medidas de distanciamento social e a paralisação das atividades devido à pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Embora tenha ajudado a conter o avanço da doença, preservando a saúde de milhares de brasileiros, a iniciativa causou um impacto enorme na atividade econômica. Entre os setores mais afetados estão aqueles considerados não essenciais, como o turismo.

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que o Produto Interno Bruto (PIB) das atividades turísticas deverá recuar 21,5% no biênio 2020-2021 em comparação ao ano de 2019. Em valores brutos, esse percentual representa uma queda de 116,7 bilhões gerados pelo setor. Para compensar essa perda, toda a cadeia turística deverá crescer, em média, 16,95% ao ano em 2022 e 2023, injetando, respectivamente, R$ 303 bilhões e R$ 355 bilhões na economia.

Em Minas Gerais, o setor movimentou R$ 20,5 bilhões na economia em 2019, segundo estudo do Observatório do Turismo de Minas Gerais (OTMG). Esse valor representa 3% do PIB estadual. Porém, após o início da pandemia, o faturamento mensal da cadeia turística mineira registrou uma queda de 30,09% apenas no mês de março. É o que revela o Índice Cielo de Vendas do Turismo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (ICV-Tur-CNC).

O economista-chefe da Fecomércio MG, Guilherme Almeida, observa que, apesar de estratégico para o país, o setor é um dos mais afetados pela pandemia, principalmente por demandar mais tempo de recuperação. “Desde março, diversas medidas necessárias, como o isolamento social, a paralisação de atividades e o fechamento de fronteiras, foram adotadas para conter o coronavírus. Com isso, o fluxo de turistas diminuiu consideravelmente, forçando a suspensão de atividades em hotéis, o cancelamento de pacotes turísticos e de serviços ligados ao setor.”

O especialista, no entanto, é cauteloso quanto à recuperação imediata da receita gerada pelo turismo. Para Almeida, o setor terá o desafio de satisfazer as novas demandas do mercado, pois, ao final do período de calamidade pública, muitos consumidores terão receio de viajar por conta da aglomeração de pessoas ou das perdas financeiras. “Por outro lado, uma parcela de turistas estará à procura por viagens e serviços turísticos, devido justamente ao fim do isolamento social e às oportunidades que deverão surgir para compensar as perdas do setor”, projeta.

Nova postura pós Covid-19

O setor de turismo é uma das principais atividades geradoras de emprego em todas as faixas de renda. Não por acaso, é um dos mais impactados pela crise econômica e social decorrente do Covid-19. Diante desse cenário, os empresários precisaram adaptar seu negócio à nova realidade. Alguns restaurantes passaram a oferecer serviços de entrega e promoções de compra para consumo futuro, como uma forma de se manter durante o período de isolamento social.

A analista de turismo da Fecomércio MG, Milena Soares, avalia que este momento originou novas relações de consumo, determinantes para a adoção de medidas que garantam a sobrevivência do negócio. “Estamos vivenciando uma situação atípica e, infelizmente, não temos previsão de retomada das atividades turísticas, enquanto durarem as medidas de combate ao coronavírus. Por isso, reinventar e planejar o negócio são atitudes imprescindíveis aos empreendedores do turismo, que, com organização, podem atrair uma demanda retraída e ainda mais exigente pelo valor dos serviços”, pontua.

Segundo Milena, as novas formas de relação de consumo já estão sendo moldadas. “As relações entre o cliente e as empresas começam a ser modificadas. Diante disso, é importante ter atenção a essa nova postura do consumidor, que buscará opções que retratem o real custo-benefício de seus serviços. Assim, a oferta de pacotes turísticos, hospedagens e promoções deve ser repensada para seguir essa nova lógica e se tornar atrativa para os consumidores”, ressalta.

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